Por muito tempo, acreditou-se que a dor no ombro era basicamente uma questão mecânica: algo estava “pegando”, “pinçando” ou “desgastando”. E, claro, a solução parecia óbvia: arrumar essa estrutura quebrada. Mas a ciência dos últimos 20 anos tem mostrado outra história — uma bem mais humana, complexa e, ao mesmo tempo, muito mais otimista. Pesquisadores como Jeremy Lewis, Paula Rezende Camargo, Annamaria Siriani, Chris Littlewood, Ann Cools, Jo Gibson, Peter O’Sullivan e muitos outros vêm desmontando velhos mitos e nos ajudando a enxergar o ombro com novos olhos.
- Nem toda dor significa lesão — e nem toda lesão significa dor
Uma das descobertas mais importantes é algo que parece até contraintuitivo:
👉 Alterações no exame (tendinopatia, calcificações, bursite, degeneração) são comuns em pessoas sem dor.
Vários estudos mostram isso. Em pessoas acima dos 40 anos, achar “alterações” no ombro é praticamente o padrão. Muitas dessas mudanças não causam dor, e fazem parte do envelhecimento natural do corpo.
É como cabelo branco: muda, mas não significa que está quebrado.
Essa ideia, defendida por autores como Jeremy Lewis e Chad Cook, ajuda a quebrar a lógica do “tá inflamado, por isso dói”.
- A dor é multifatorial (e isso é libertador)
A dor no ombro não nasce só do tendão. Ela pode ser influenciada por:
- estresse
- sono ruim
- sedentarismo
- movimento reduzido
- medo de se machucar
- sensibilização do sistema nervoso
Isso não quer dizer que “a dor é da sua cabeça”. Significa que dor é uma experiência, e não apenas um sinal de dano.
E quanto mais entendemos isso, mais conseguimos tratá-la de forma eficiente.
- O ombro é forte — mesmo quando dói
Uma mensagem repetida por pesquisadores como Paula Camargo, Siriani e Jo Gibson é:
👉 O ombro raramente está fraco ou lesionado a ponto de ser inseguro.
Dói, sim. E dói bastante, às vezes.
Mas isso não significa fragilidade.
Na maioria dos casos, significa apenas que o sistema precisa voltar a se movimentar de forma segura e progressiva.
- Exercício continua sendo o tratamento mais eficaz
Se existe um consenso forte na literatura, é este:
⭐ Exercício é o principal tratamento para dor no ombro.
Não existe exercício “perfeito”, assim como não existe um músculo mágico que resolva tudo.
O que existe é um processo:
- Movimentos simples para diminuir a sensibilidade
- Fortalecimento leve e progressivo
- Função real — levantar, empurrar, alcançar
- Progressão organizada, respeitando dor, mas não evitando movimento
Pesquisadores como Littlewood, Cools, Lewis, Camargo e Silbernagel reforçam este ponto há anos.
E o mais importante:
👉 O exercício funciona mesmo quando o exame mostra “alterações”.
- O que a cirurgia não resolve melhor que o exercício
Várias revisões mostram que, para a maioria das dores crônicas no ombro, cirurgia não é mais eficaz que fisioterapia bem feita.
Para muitos pacientes, operar significa meses de recuperação, riscos e um resultado parecido ou até inferior ao ganho que teriam com exercícios consistentes.
Ou seja:
O corpo tem uma capacidade de recuperação muito maior do que imaginamos.
- O papel mais importante da fisioterapia hoje
Você já percebeu que, no fim das contas, não tratamos tendão.
Tratamos pessoas:
- com medo,
- com dúvidas,
- com expectativas,
- com hábitos,
- com crenças antigas,
- e com histórias que moldam a forma como se movem.
O fisioterapeuta moderno, seguindo essa linha de pesquisa, ajuda o paciente a:
✔ voltar a confiar no próprio ombro
✔ entender que dor não é sentença
✔ descobrir movimentos que aliviam
✔ progredir com segurança
✔ recuperar autonomia
É ciência. Mas também é humanidade.
Conclusão: o ombro quer movimento, não perfeição
A grande mensagem é simples e poderosa:
🟦 Seu ombro é forte.
🟦 Seu corpo é adaptável.
🟦 Sua dor tem solução.
Mas essa solução não está em achar uma estrutura “errada”.
Está em olhar o corpo inteiro, em entender o contexto, em organizar o movimento, em construir força e confiança.
É assim que tratamos hoje — e é assim que a ciência recomenda.
Referências (Vancouver)
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- Camargo PR, Avila MA et al. Scapular muscle training for impingement. Clin Rehabil. 2015;29(11):1155–66.
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- Silbernagel KG, Crossley KM. A new paradigm for tendinopathy rehab. Br J Sports Med. 2015;49(24):1544–6.
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